Terça-feira, 1 de Julho de 2008

O custo do software

Existem alguns mitos sobre o custo do software que sobrevivem por décadas, mas que se submetidos a uma análise mais fria não resistem um único instante. Um deles é de que as licenças de software por tempo ilimitado, tal como o software de prateleira vendido hoje, apenas por serem perpétuas são um benefício ao usuário. Isto mesmo quando comparados a outros modelos de comercialização ou distribuição, incluindo o pagamento mensal por uso e até mesmo o software livre. Em recente reunião com clientes da qual participei foi dito que seria irrelevante considerar a substituição do pacote de escritório utilizado, um software proprietário, pelo seu similar em software livre, já que a empresa em questão já possuía as licenças necessárias, e portanto não haveria custo em manter-se com este pacote proprietário (para esclarecer, neste artigo falo de software livre com relação ao fato de não ter custo de licença mesmo, sem nenhum outro aspecto filosófico ou político associado). Ora, qual o erro deste raciocínio ?

Por coincidência, na revista Info de junho de 2008, página 34, o colunista mundialmente famoso e com décadas de experiência John C. Dvorak afirma que "A idéia da revolução do PC é você comprar um software e usá-lo para sempre. De fato, você pode usar versões antigas do Word e nunca fazer upgrade". Qual o problema desta outra afirmação? Logo a seguir neste mesmo artigo o software como serviço é demonizado, como tentativa vil de extorquir os usuários, sem que nenhum número dos custos totais de cada opção fosse apresentado. Vamos então tomar como exemplo o software citado por Dvorak, o Word.

O problema com as duas idéias é que na prática o que elas predizem não acontece, com raríssimas exceções. A probabilidade de alguém estar usando a mesma versão do Word por 10 anos ou mais é remota, por várias razões. Começa pelo intenso marketing, sempre demonstrando novas funções, mas este até se poderia ignorar, mesmo porque a maioria destas funções novas não será usada mesmo... Depois temos as mudanças nos formatos de arquivos, ou seja, arquivos gerados nos formatos das versões mais novas não são lidos nos editores mais antigos, e como arquivos são trocados o tempo todo entre as pessoas, os usuários das versões antigas ficam mais e mais isolados. O novo Word 2007 gera arquivos em um novo formato que o 2003 não lê.

Depois acontece que um software destes requer patches de correção, inclusive patches de segurança, e depois que acaba o prazo de manutenção do software o usuário da versão antiga está vulnerável a ataques. E por fim, quando por muita teimosia, alguém ultrapassa todas estas barreiras, chega um dia em que o software não tem mais plataforma de hardware e sistema operacional onde rodar. A versão do Word 16 bits por exemplo pode não rodar mais em máquinas com sistemas operacionais de 64 bits (não testei o Word, mas tenho software de 16 bits que não roda no Windows Vista 64). Como também é muito improvável que um computador não seja trocado por outro mais novo, algum dia o software ficará órfão. Este é um caso extremo. Na prática em 4 anos em média um software deste tipo está pedindo aposentadoria, e o usuário está cobiçando ou uma versão mais nova ou outro melhor.

Quando for necessária a troca do Word X pelo Word Y o usuário pagará uma nova licença, ou na melhor hipótese obterá um desconto pelo upgrade, mas pagará. Financeiramente a consequência é um custo anual que pode ser estimado. Se for 4 anos para a troca em média, um Office que custa R$ 1000,00 de licença ficaria a 250,00 por ano. Isto é mais que o custo do software livre, que é zero. E teria que ser comparado com o valor do software como serviço mensal, coisa que alguns articulistas de revista não se dá ao trabalho de fazer. Algum valor de serviço mensal é equivalente a este, com a vantagem de que o dinheiro não fica preso por todo o tempo considerado, e a qualquer momento o usuário pode cancelar a assinatura.

Agora, o que motiva um colunista com tanto tempo de experiência a defender um argumento tão frágil? Pode ser exatamente o fato de ver toda a realidade tão conhecida começar a ruir, e tentar se apegar à sensação de conforto gerada pela familiaridade com esta realidade anterior. O modelo de venda de licenças de software está fazendo água, por diversos motivos entre os quais a competição com os dois tipos de distribuição citados, o software livre e o software como serviço. Não creio que o software de prateleira vá desaparecer, pois para alguns tipos de programas com público mais restrito talvez seja mais viável vender licença. Para outros com muitas opções equivalentes, geralmente com público grande, as alternativas de softwares livres ou de uso mediante uma pequena com taxa mensal começam a se tornar mais atrativos.

Outro mito é que o software livre impõe custos mais altos de suporte, agora focando do lado do software para servidores. Este custo alto supostamente anularia a economia com licenças . Como se qualquer software, livre ou proprietário, não precisasse de suporte. E como se este suporte, em quase totalidade dos casos, não fosse dado pela própria equipe de administração de sistemas das empresas usuárias, seja própria ou terceirizada, mas sempre paga à parte. Se o custo da hora de um profissional especializado em determinado produto é maior ou menor, pela falta de profissionais e lei da oferta e da procura, é um fato transitório. Ou seja, é mais um mito a idéia de que por ser software livre o suporte é necessáriamente mais caro. Pode ser ou não, e só se saberá comparando a cada caso.

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